Filipa Marques — Coaching e PNL

Saúde mental e alto rendimento: porque não tens de escolher

Saúde Mental no Desporto6 min de leituraFilipa Marques

Falar de saúde mental no desporto ainda cria uma falsa escolha. De um lado, a exigência, a disciplina e a procura de resultados. Do outro, o descanso, o bem-estar e a proteção emocional. Como se tivesses de abdicar de um para cuidar do outro.

Não tens. Proteger a saúde mental não é evitar pressão nem baixar o nível. É criar as condições para aguentares a exigência sem que ela te consuma. O alto rendimento não precisa de ser confortável, mas também não deve funcionar como um sistema que só reage quando já não consegues continuar.

A exigência não é o problema

Precisas de ser desafiado. Precisas de tolerar frustração, lidar com erros, competir sob pressão e continuar a trabalhar quando os resultados demoram a aparecer. Retirar-te todas as dificuldades não protege nada, trava o teu desenvolvimento.

O problema começa quando a exigência deixa de vir acompanhada de recuperação, clareza, apoio, margem para comunicar dificuldades, segurança para errar e corrigir, e uma sensação real de controlo sobre aquilo que depende de ti. A partir daí, deixas de estar perante um desafio pontual e passas a viver num estado prolongado de sobrecarga.

Trata a recuperação como parte do treino

O descanso ainda é tratado como ausência de trabalho. Mas não evoluis só quando treinas, evoluis quando te consegues adaptar à carga que recebes. E recuperar não é só o corpo: é a atenção, o sono e a disponibilidade emocional.

Viagens, horários irregulares, competições tardias, ansiedade e ecrãs a mais mexem com o teu sono, e o sono influencia a recuperação, a cognição, o rendimento e o bem-estar. Proteger a recuperação é respeitar os períodos de descanso, não transformar cada momento livre em análise de desempenho, observar alterações persistentes no sono, ajustar cargas quando há sinais de desgaste e criar momentos em que não estás psicologicamente dentro da próxima competição.

Descansar não é desistir da ambição. É garantir que o sistema tem capacidade para continuar a responder.

Filipa Marques

Exigência sustentável, não exigência infinita

Uma exigência elevada faz crescer quando existem recursos para lhe responder. Quando a pressão é contínua e a recuperação insuficiente, o esforço deixa de produzir adaptação e passa a produzir desgaste. O objetivo nunca é criar atletas menos exigentes, é evitar que a exigência gaste os recursos psicológicos de que precisas para continuar a render.

Proteger a saúde mental não é reduzir todas as dificuldades, é aumentar a tua capacidade e a do teu contexto para lhes responder. E há um risco específico quando tudo aquilo que és passa a depender do resultado. É disso que falamos no próximo artigo, sobre a identidade do atleta.

No podcast INVISÍVEL, os episódios «Viver no Alto Rendimento» e «Resistir no Alto Rendimento» exploram a diferença entre suportar a exigência de forma sustentável e permanecer em esforço até os recursos se esgotarem.

Perguntas frequentes

Cuidar da saúde mental reduz a competitividade?
Não. Recuperação, apoio e autorregulação ajudam o atleta a sustentar a exigência ao longo do tempo. Proteger a saúde mental não significa evitar esforço nem frustração.
Descansar é sinal de falta de ambição?
Não. O atleta não evolui só quando treina, evolui quando se adapta à carga. O descanso é o que permite que o esforço se transforme em progresso em vez de desgaste.
O treinador é responsável pela saúde mental do atleta?
Não é responsável por diagnosticar ou tratar, mas tem responsabilidade sobre o ambiente que cria, a comunicação que usa e o encaminhamento para profissionais quando surgem sinais preocupantes.

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