Filipa Marques — Coaching e PNL

Saúde mental no desporto: um atleta funcional também pode não estar bem

Saúde Mental no Desporto6 min de leituraFilipa Marques

Um atleta começa a treinar pior, mostra-se mais irritável e afasta-se dos colegas. A explicação surge depressa: «Está desmotivado.» «Não sabe lidar com a pressão.» «Precisa de ser mentalmente mais forte.» Pode ser um problema de atitude. Mas também pode ser um sinal de que alguma coisa não está bem.

No desporto, as alterações emocionais e comportamentais são quase sempre lidas através do rendimento. O risco é ignorar o sofrimento psicológico só porque o atleta continua a treinar, a competir ou a apresentar resultados. Um atleta pode continuar funcional e, ainda assim, não estar bem.

Os atletas também enfrentam problemas de saúde mental

Disciplina, resistência e sucesso não protegem ninguém de ansiedade, depressão, perturbações alimentares ou outras dificuldades psicológicas. Além do que pode afetar qualquer pessoa, os atletas estão expostos a fatores específicos: pressão constante para render, lesões, seleção e exclusão, críticas públicas, perda de estatuto, incerteza contratual, transições de carreira e uma identidade demasiado dependente do desempenho.

O próprio contexto desportivo pode dificultar o pedido de ajuda. Num meio onde se valorizam o controlo, a resistência e o sacrifício, admitir sofrimento ainda é lido como falta de força ou de compromisso. Por isso, nem sempre o atleta diz claramente que precisa de apoio.

O rendimento visível não revela o estado emocional. Há atletas que mantêm resultados durante meses apesar de não estarem bem.

Filipa Marques

Uma fase difícil não é automaticamente um problema clínico

Nem toda a tristeza é depressão. Nem todo o nervosismo é uma perturbação de ansiedade. Nem toda a falta de motivação é burnout. Uma derrota, uma lesão, uma exclusão ou um período de menor rendimento têm um impacto emocional natural.

O que deve ser observado é a intensidade dos sintomas, há quanto tempo persistem, com que frequência aparecem e de que forma afetam a vida do atleta. Uma reação difícil depois de uma derrota pode ser esperada. Torna-se preocupante quando se prolonga, se agrava ou interfere com o sono, a alimentação, as relações, o treino ou a vida fora do desporto.

O papel de treinadores, familiares e profissionais do rendimento não é diagnosticar. É reconhecer mudanças relevantes e encaminhar quando necessário. E para reconhecer, é preciso saber o que procurar, os sinais de alerta que vemos no próximo artigo.

Perguntas frequentes

Um atleta com bons resultados pode estar em sofrimento psicológico?
Sim. O rendimento visível não revela necessariamente o estado emocional. Alguns atletas mantêm bons resultados durante períodos significativos apesar de não estarem bem.
Uma fase difícil é sempre um problema de saúde mental?
Não. Derrotas, lesões e quebras de rendimento têm impacto emocional natural. Torna-se preocupante quando os sintomas persistem, se agravam ou afetam várias áreas da vida.
Porque é que os atletas evitam pedir ajuda?
Porque, num meio que valoriza controlo, resistência e sacrifício, admitir sofrimento ainda é interpretado como falta de força ou de compromisso.

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