Filipa Marques — Coaching e PNL

Porque acontece o burnout no atleta (e o que realmente ajuda)

Inteligência Emocional7 min de leituraFilipa Marques

O burnout raramente resulta apenas de «treinar demasiado». Costuma nascer do encontro entre uma carga elevada e um conjunto de fatores psicológicos e de contexto que, juntos, retiram ao atleta a capacidade de recuperar e de encontrar sentido no que faz.

Exigência prolongada sem recuperação

Quando há competição constante, viagens, pouco descanso e pressão contínua, o organismo deixa de ter tempo para recuperar. O problema não é uma semana difícil, é a ausência prolongada de alternância entre carga e recuperação.

Falta de controlo

O atleta pode sentir que não decide quanto treina, quando descansa, se compete lesionado, que objetivos persegue, como é avaliado ou se pode expressar dificuldades. Quanto menor a autonomia, mais facilmente o compromisso é substituído por obrigação.

Perfeccionismo rígido

Ter padrões elevados pode apoiar o rendimento. O risco surge quando o atleta interpreta qualquer resultado abaixo do ideal como insuficiência pessoal. Preocupação excessiva com erros, crítica interna constante e a sensação de nunca fazer o suficiente estão entre os fatores associados ao burnout.

Identidade exclusivamente desportiva e relações desgastantes

Quando toda a vida se organiza à volta da modalidade, torna-se difícil criar distância psicológica: mesmo fora do treino, o atleta continua a pensar no corpo, no resultado ou na competição seguinte. A isto somam-se relações negativas, crítica constante, conflitos e falta de apoio. Em contrapartida, o sentimento de pertença, as relações de confiança e o apoio social funcionam como fatores protetores.

O descanso resolve a fadiga. Não resolve um ambiente desgastante, falta de autonomia, perfeccionismo ou perda de sentido.

Filipa Marques

O que fazer perante sinais de burnout

A resposta não se pode limitar a dizer ao atleta para descansar dois dias. É preciso analisar a carga de treino e competição, a qualidade do sono, a pressão externa, a autonomia, os conflitos, a recuperação emocional, a relação atual com a modalidade, as expectativas e o perfeccionismo, e as dificuldades fora do desporto.

Em alguns casos, será necessário reduzir ou reorganizar a carga. Noutros, o problema principal estará no ambiente, na ausência de controlo ou na forma como o atleta interpreta permanentemente o próprio rendimento. Também é importante recuperar experiências de competência e significado: voltar a perceber por que treina, o que ainda valoriza e se os objetivos que persegue continuam a fazer sentido. Quando há sofrimento significativo ou alterações persistentes de humor ou funcionamento, deve procurar-se avaliação de um profissional de saúde mental.

Prevenir não é facilitar

Prevenir o burnout não significa diminuir automaticamente a exigência. O atleta não precisa de ser protegido de todo o desconforto, precisa de não permanecer continuamente num contexto em que o esforço aumenta e os recursos diminuem. Instrumentos simples de autorrelato sobre fadiga, stress, recuperação e bem-estar, observados ao longo do tempo e não num dia isolado, ajudam a acompanhar a resposta à carga.

Quando o atleta já não recupera, deixa de se reconhecer naquilo que faz e sente que nada é suficiente, insistir apenas em mais disciplina pode aprofundar o problema. Se é aí que estás, ou alguém que acompanhas, marca uma conversa, para olharmos para a carga, o contexto e o sentido em conjunto.

Perguntas frequentes

O burnout resulta só de treinar demais?
Não. Envolve também falta de recuperação, ausência de controlo, perfeccionismo rígido, identidade exclusivamente desportiva e relações desgastantes no contexto do desporto.
Atletas jovens também podem desenvolver burnout?
Sim. Especialização precoce, calendários intensos, pressão e falta de autonomia podem aumentar o risco de desgaste e de abandono desportivo.
Prevenir o burnout significa reduzir a exigência?
Não. Significa garantir que o atleta não permanece continuamente num contexto em que o esforço aumenta e os recursos diminuem, mantendo recuperação, autonomia e sentido.

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